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Reprodução das Bromélias






Reproduzir ou multiplicar uma bromélia não é uma tarefa muito complicada, sendo entretanto, de certo modo, quase uma obrigação para todo mundo que as cultiva conhecer os procedimentos básicos para sua reprodução. Quando reproduzimos uma planta, estamos aumentando o número de exemplares da mesma em nossa coleção, e mesmo que não tenhamos nenhum interesse em comercializar estas novas mudas, as mesmas possibilitam a realização de trocas com outros colecionadores. Podem ainda ser dadas de presente para amigos e conhecidos, servindo, talvez, para despertar  a paixão pelas bromélias nestas pessoas, criando assim novos “bromeliófilos”, que já estarão nascendo imbuídos do hábito de cultivar bromélias produzidas, e não plantas simplesmente roubadas da natureza. Reproduzir uma bromélia é portanto a melhor maneira de se lutar por sua preservação, principalmente quando se tem interesse em espécies nativas, brasileiras ou não, visto que a preservação ambiental não deve ter fronteiras geo-políticas.
Existem três maneiras de se multiplicar uma bromélia: a primeira e mais simples de todas, é por meio da retirada de brotos, a segunda por multiplicação meristemática feita em laboratório, e a terceira por meio de sementes.
Com os dois primeiros métodos, conhecidos como reprodução assexuada, as plantas obtidas são idênticas à planta mãe, visto que as mudas geradas são na verdade  uma parte da planta mãe, ou seja, são a própria planta mãe. O terceiro método , a reprodução por sementes ou reprodução sexuada permite o cruzamento de duas plantas de espécies e mesmo de gêneros diferentes. Surge com isso a possibilidade de se criar plantas novas, diferentes daquelas que existem na Natureza, que são chamadas de híbridos.
O desenvolvimento da grande maioria das bromélias ocorre de maneira semelhante. A planta vai crescendo com o nascimento de novas folhas no centro da planta, onde se localiza o meristema apical ou principal da planta. Quando atinge a idade adulta, e com isso o completo amadurecimento de seus tecidos, ocorrem diversas transformações neste meristema principal, a planta floresce e posteriormente morre. Quase simultaneamente ao florescimento , a planta “desperta” alguns meristemas ou gemas laterais que dão origem a brotos ou “filhotes”  da planta, em número que geralmente oscila entre um e três. Se nada for feito, após se completar o desenvolvimento dos “filhotes”, a planta mãe  “certa de ter cumprido seu papel na perpetuação da espécie”  encerra seu ciclo de vida e morre. Até aí, a multiplicação da planta ocorreu de maneira natural, sem nenhuma interferência do cultivador.
Podemos entretanto “enganar” a planta e forçá-la a produzir mais brotos. Para isto, basta que observemos os “filhotes” gerados espontaneamente. Quando os mesmos atingirem cerca de dois terços do tamanho da planta adulta, e já tiverem iniciado a produção de raízes próprias, separamos os brotos com o auxilio de uma tesoura  ou lamina afiada.

Retirada de um broto por meio de corte.
fotos: Artur N. Heger

Ao perder o vínculo com seus “filhotes”, a planta “deixa de ter a sensação de missão cumprida quanto a sua auto-preservação”, e novas gemas despertam dando origem a novos brotos. Este procedimento pode ser repetido diversas vezes antes que a planta mãe morra, possibilitando assim que se obtenha em muitos casos mais de uma dezena de novas plantas a partir de uma única matriz.
Algumas espécies entretanto possuem um sistema de brotação diferente do aqui indicado, e sua multiplicação por este método será oportunamente tratada em matérias específicas.
A multiplicação por meio de meristema, também conhecida como “clonagem”, só pode ser feita em laboratórios bem aparelhados. Por este método, é possível produzir milhares de novas plantas a partir de um único broto. Com o auxílio de lupas potentes em um ambiente absolutamente estéril é isolado deste broto o conjunto de células meristemáticas ou simplesmente o meristema, que, em linguagem leiga, é uma pequena massa de células em rápido processo de multiplicação. Esta minúscula massa é colocada em meios nutrientes e periodicamente dividida em partes chamadas protocórmios. Estas divisões continuam até que se obtenha o número de protocórmios igual ao número de plantas que se quer obter. A troca do meio de cultura faz com que estes protocórmios parem de se multiplicar, e cada um gere uma nova planta, que após atingir um tamanho adequado pode sair do laboratório e ser cultivada normalmente. Por terem se originado de um único broto, todas as plantas assim obtidas são teoricamente idênticas.
O terceiro método, a reprodução por meio de sementes, embora mais demorado do que a retirada de brotos é o que possibilita ao cultivador amador a obtenção de uma maior quantidade de novas mudas. Possibilita  ainda àqueles que tenham este tipo de interesse, a criação de um novo híbrido, ou seja, o cruzamento de duas plantas de espécies e mesmo de gêneros diferentes. Se se justifica ou não, e quando se justifica a criação de um híbrido, é um assunto que será oportunamente tratado em outras matérias. Cabe aqui apenas explicar como isto pode ser feito.
Para que possamos pensar em produzir bromélias a partir de sementes, é primeiramente necessário que saibamos como obter as sementes, ou seja, como polinizar uma flor de bromélia.
Nunca é demais lembrar que o que a maioria das pessoas chama de flor em uma bromélia, aquele atraente e colorido conjunto,  é na verdade uma inflorescência, ou seja, um conjunto de várias flores e brácteas , sendo que  estas últimas, folhas modificadas, são muitas vezes mais coloridas que as próprias flores. Geralmente as flores de uma mesma inflorescência  não abrem todas ao mesmo tempo, abrindo em seqüência, e cada flor dificilmente fica aberta por mais de um dia.

Inflorescência e flor de uma bromélia
fotos: Artur N. Heger

Para auto-polinizar uma flor basta retirar um pouco do pólen (que normalmente se assemelha a um pó amarelo) da antera (“parte masculina”) da flor e colocá-lo no estigma (“parte feminina”) da mesma, como é mostrado abaixo.

Polinização de Vriesea scandensPolinização de Guzmania sanguinea
fotos: Artur N. Heger

Feito isto, o resto corre por conta da natureza, e, caso a polinização tenha sido bem sucedida, só resta ao cultivador esperar que os frutos ou cápsulas que se formarão amadureçam para que se possa colher as sementes.
Para se produzir um híbrido, o procedimento é o mesmo, bastando que o pólen retirado da antera de uma flor seja colocado no estigma de uma flor de uma outra espécie. Neste caso, só se obterá sementes se as duas plantas cruzadas forem compatíveis. Quando cruzamos flores de duas plantas de uma mesma espécie não estamos produzindo um híbrido mas sim reproduzindo a mesma espécie. Este procedimento que pode ser chamado de polinização cruzada é muitas vezes necessário para a obtenção de sementes férteis, pois, por um mecanismo de defesa da natureza, muitas plantas não aceitam a auto-fecundação, visto que tal procedimento pode acentuar alguma deficiência genética da planta.
Para saber o melhor momento de se colher as sementes de uma bromélia é necessária uma certa prática. Pode-se adotar como regra esperar que as cápsulas se abram espontaneamente, como fariam na natureza. Com este método corremos o risco de perder parte das sementes quando a cápsula abrir, mas evitamos colher sementes que ainda não estão maduras, e portanto não germinarão pelos meios normais de cultivo.
As sementes de bromélia diferem bastante de um gênero para outro. Sementes de Vriesea e Tillandsia são “plumosas”, e facilmente transportadas pelo vento; sementes de Dyckia se assemelham a uma pequena lentilha seca; as sementes de Aechmea e Billbergia são envolvidas por uma capa “gosmenta”, apenas para citar algumas.

Sementes de bromélias
foto: Marcos A. Campacci

De modo geral as sementes “secas” podem ser semeadas sem nenhum preparo especial. Já as envolta por algum tipo de capa pegajosa devem ser muito bem lavadas, pois esta capa é geralmente adocicada o que pode atrair insetos, além de serem facilmente atacadas por fungos que podem destruir as sementes ou seus embriões.
Como substrato para a semeadura, os mais utilizados são o pó de xaxim ou o sfagno, um tipo de musgo muito utilizado em arranjos florais. Estes materiais devem ser esterilizados com água fervendo para eliminar possíveis sementes indesejáveis e esporos de fungos. Depois de esterilizado o substrato é colocado em qualquer tipo de recipiente não metálico em uma camada de pelo menos dois ou três centímetros. Sobre este substrato espalhamos as sementes. Caso se queira recobrir as sementes com o substrato, a camada de cobertura deve ser extremamente fina, para não dificultar a brotação das mesmas. A sementeira deve ser mantida sempre úmida, em local bem iluminado e protegido do ataque de insetos. Deve ser observada constantemente, e caso seja atacada por algum fungo pode ser tratada com fungicida que não contenha cobre nem outro metal em sua fórmula. Geralmente a aplicação de fungicida atrasa um pouco o desenvolvimento das novas plantinhas.
O tempo necessário para que as sementes germinem varia muito conforme o gênero que estamos tentando reproduzir, o ponto de maturação das sementes, as condições de iluminação e temperatura que a sementeira é mantida, etc. A paciência nesta hora é portanto fundamental, assim como é fundamental que a sementeira nunca fique ressecada, pois isto poderá provocar a morte de todas as plantinhas.

Sementeira de Billbergia sp. com 30 diasSementeira de Dyckia sp. com 90 diasSementeira de Vriesea sp. com 45 dias
fotos: Artur N. Heger

As plantas reproduzidas por semente possuem um desenvolvimento mais lento do que aquelas obtidas por meio de brotação lateral, podendo portanto, dependendo de que planta estejamos cultivando, levar vários anos até atingir a idade adulta e florir. Mas quando isto ocorre, temos a plena certeza de que todo nosso trabalho e tempo despendidos foram totalmente justificados.